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quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Marca do Tapa!

Aderbal acordou cedo, assustado, olhou para o relógio e o dia ainda dormia. Queria continuar abraçado aos sonhos, mas a realidade o empurrou para o pequeno banheiro de seu “kit net” próximo ao centro da cidade. Banho rápido com água quase quente, fazia calor, dentes escovados, um suco de laranja e nenhum beijo de bom dia.

Três conduções até a cidade vizinha, trabalho enfadonho, massa corrida, cimento, paredes, blocos e ardência nos olhos. Bate estaca, sem vozes, risos ou lamentos, nem mesmo o resultado do futebol. Almoço rápido, uma “quentinha” meia boca, com um gole de tubaína dividida entre colegas. Mais cimento, mais poeira, dia quente e cinza. Banho no trabalho, ônibus, corrida, tênis velho, pé molhado na poça, chuva inoportuna e aula.

Cálculo I, Geometria Analítica, Introdução a Engenharia, um professor jovem, outro nem tanto, agora sim uma pausa para saber e brincar com os resultados do futebol, um “Sonho de Valsa” de uma colega e uma noite feliz.

No outro dia, quase tudo igual, choveu pela manhã, o suco de laranja tinha acabado, apenas leite frio e como sempre nenhum beijo de bom dia. A quentinha estava com pouco sal, a tubaína veio sem gelo e o professor de Expressão Gráfica faltou. A moça do “sonho de valsa” pagou algumas cervejas. Beijos esperados e felizes, noite estrelada, uma despedida de sonhos...

Na volta, Aderbal, com seu tênis furado, calça velha e cabelo estilo “Black Power” foi confundido pela polícia, assustado correu, foi pego, e sem chances de se defender, humilhado. Tentou falar, chorou e apanhou na alma. A mochila com sua roupa de trabalho, seus cadernos, compassos, canetas, lápis e borracha, foi chutada, não tinha nada de errado, averiguação de rotina, lágrimas para sempre. “Preto, pedreiro e engenheiro, era só que faltava mesmo”, disse o mais velho entre as autoridades.

Aderbal ficou imóvel, sem saber o que pensar, chorou ainda mais, pensou nos pais que já tinham partido, na madrinha que de vez em quando levava um bolo de fubá, no único sobrinho que sonhava ser médico, engoliu a tristeza e caminhando, pensou em dias menos cinzas, em noites mais longas e no doce de abóbora que sua saudosa avó fazia.

Mas a marca do tapa em seu rosto, ficará para sempre na sua alma.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. Desejo ao Aderbal...beijo de bom dia...

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